O Conselho da União Europeia aprovou, nesta quinta-feira (4/6), um novo pacote de financiamento no valor de 100 milhões de euros para fortalecer as capacidades das Forças Armadas Libanesas (LAF, na sigla em inglês).
O pacote foi aprovado no âmbito do European Peace Facility, programa financeiro do bloco europeu lançado em 2021 com o fim de “apoiar ações relacionadas à segurança, defesa e prevenção de conflitos fora do orçamento regular da UE”. O programa tem sido uma das principais ferramentas da política externa europeia no setor de defesa.
O valor é o maior da história da UE já destinado ao Exército libanês desde a criação do fundo, e ocorre num momento delicado das tensões no Oriente Médio, com a continuidade dos ataques de Israel ao país mesmo sob os termos de um cessar-fogo discutido na quarta-feira (3/6).
Segundo informações da Defesa Civil libanesa compartilhadas por portais internacionais, sete pessoas teriam morrido em novos ataques de Israel ao sul do Líbano na noite desta quinta-feira (4/6), com bombardeios próximos a um hospital na região de Jabal Amel.
O cessar-fogo havia sido acordado nos EUA no dia anterior e previa a retirada de combatentes do Hezbollah das áreas ao sul do rio Litani, além da expansão da presença das Forças Armadas Libanesas nessas regiões. Mas, em vista dos novos ataques israelenses, o chefe do Hezbollah se pronunciou para rejeitá-lo na quinta-feira (4/6), chamando as negociações de “vergonhosas” e reiterando que um cessar-fogo completo deve envolver a retirada de Israel do sul do país, onde mantém uma zona-tampão militar.
O auxílio europeu vem, agora, como “financiamento humanitário e diplomático” do EPF, que já foi empregado no apoio a países como Ucrânia, Armênia e Albânia no passado. É o quarto financiamento dessa espécie ao Exército nacional do Líbano, que envolveu, em janeiro de 2025, um outro aporte no valor de € 60 milhões.
Segundo o Conselho Europeu, os recursos serão direcionados para cinco áreas consideradas críticas para o país; entre elas estão o controle territorial, a segurança marítima e a proteção de instalações militares do país. Segundo Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, o objetivo é que o Estado libanês recupere do Hezbollah o “monopólio legítimo do uso da força” e reduza a “influência de grupos armados não estatais”.
Atualmente, o Hezbollah, grupo de resistência fundado para expulsar do território libanês a operação israelense Paz para a Galileia (instituída em 1982), detém 15 dos 128 assentos do Parlamento e dois ministérios no gabinete federal, além de operar cinco hospitais, 42 clínicas e 12 escolas no país.
O discurso europeu associado ao novo auxílio monetário foca na necessidade de enfraquecer militarmente o Hezbollah, apoiado pelo Irã e pelo chamado Eixo da Resistência. Desde a guerra de 2006 entre Israel e Hezbollah, a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU estabeleceu que apenas o Exército libanês e a missão da ONU deveriam atuar armados no sul do país.
Apesar de tecer críticas a Israel, o bloco europeu é majoritariamente alinhado aos interesses da OTAN e ao combate à influência iraniana no Oriente Médio. Para os países do Leste Europeu, o fortalecimento do Exército libanês tem como objetivo diminuir o eixo de atuação do Hezbollah e da “rede de resistência” contra a presença ocidental na região.
O Exército formal do Líbano, as Forças Armadas Libanesas (LAF), no entanto, nunca exerceu controle pleno sobre o território nacional, especialmente nas regiões do sul e do Vale do Bekaa, historicamente dominadas pela resistência.
As LAF foram estabelecidas em 1945, após a independência da França, para agir como instituição “neutra” entre cristãos, muçulmanos, xiitas e sunitas; em 1948, no entanto, uniram-se ao Exército de Libertação Árabe para combater as forças israelenses que invadiam Qadas e Malkieh, na região libanesa de Jabal Amil.
As sucessivas incursões israelenses ao território libanês deram ao Hezbollah sua tônica de atuação como resistência paramilitar armada, que hoje disputa a soberania efetiva no Líbano.