Trump já gastou R$ 140 bilhões com guerra no Irã e seu estoque de armas estratégicas está ameaçado

Conflito reduziu significativamente o suprimento global de munições das Forças Armadas americanas e obrigou o Pentágono redirecionar recursos da Ásia e da Europa para o Oriente Médio

Por Eric Schmitt e Jonathan Swan | The New York Times

24/04/2025

Trump já gastou R$ 140 bilhões com guerra no Irã e seu estoque de armas estratégicas está ameaçado
Militares americanos tomam petroleiro iraniano no Estreito de Ormuz Foto: Deptowar via X
Desde o início da guerra com o Irã, no final de fevereiro, os Estados Unidos já utilizaram cerca de 1.100 mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance — projetados para uma guerra com a China —, quase a metade do total do arsenal americano. As Forças Armadas também dispararam mais de 1.000 mísseis de cruzeiro Tomahawk, aproximadamente dez vezes a quantidade que compram anualmente.
 
O Pentágono utilizou mais de 1.200 mísseis interceptores Patriot na guerra, a um custo superior a US$ 4 milhões cada (R$ 20 milhões), e mais de 1.000 mísseis de ataque de precisão e ATACMS, deixando os estoques em níveis preocupantemente baixos, segundo estimativas internas do Departamento de Defesa e de autoridades do Congresso.
 
A guerra com o Irã reduziu significativamente o suprimento global de munições das Forças Armadas americanas e obrigou o Pentágono a enviar bombas, mísseis e outros equipamentos para o Oriente Médio a partir de comandos na Ásia e na Europa.
 
A redução de efetivos deixou esses comandos regionais menos preparados para enfrentar potenciais adversários como a Rússia e a China, e forçou os Estados Unidos a encontrar maneiras de aumentar a produção para suprir as deficiências, afirmam autoridades do governo Trump e do Congresso.
 
O conflito também evidenciou a dependência excessiva do Pentágono de mísseis e munições extremamente caros, especialmente interceptores de defesa aérea, bem como preocupações sobre a capacidade da indústria de defesa de desenvolver armamentos mais baratos, principalmente drones de ataque, com muito mais rapidez.
 
O Departamento de Defesa não divulgou quantas munições utilizou nos 38 dias de guerra antes do cessar-fogo entrar em vigor há duas semanas. O Pentágono afirma ter atingido mais de 13.000 alvos, mas autoridades dizem que esse número mascara a vasta quantidade de bombas e mísseis utilizados, já que aviões de guerra, aviões de ataque e artilharia normalmente atingem grandes alvos diversas vezes.
 
Autoridades da Casa Branca se recusaram a estimar o custo do conflito até o momento, mas dois grupos independentes afirmam que a despesa é exorbitante: entre US$ 28 bilhões (R$ 140 bilhões) e US$ 35 bilhões (R$ 175 bilhões), ou pouco menos de US$ 1 bilhão por dia (R$ 5 bilhões).

Gestão de estoque em risco

Para restaurar o estoque global ao seu tamanho anterior, os Estados Unidos terão que tomar decisões difíceis sobre onde manter sua força militar nesse período. “Nos níveis atuais de produção, reconstituir o que gastamos pode levar anos”, disse o senador Jack Reed, de Rhode Island, principal democrata na Comissão de Serviços Armados, esta semana.
 
“Os Estados Unidos possuem muitas munições com estoques adequados, mas algumas munições críticas de ataque terrestre e de defesa antimíssil já estavam em falta antes da guerra e estão ainda mais escassas agora”, disse Mark F. Cancian, coronel da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais e consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, que recentemente publicou um estudo estimando a situação de munições essenciais.

O que diz a Casa Branca?

Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, contestou os números. “Os Estados Unidos possuem as forças armadas mais poderosas do mundo, totalmente equipadas com armas e munições mais do que suficientes, em estoques aqui no país e em todo o mundo, para defender eficazmente o território nacional e executar qualquer operação militar ordenada pelo comandante-em-chefe”, disse.
 
Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, recusou-se a comentar sobre “quaisquer requisitos específicos de teatro de operações ou detalhar nossas capacidades de recursos globais”, alegando segurança operacional.

Aprovação de verbas

O que torna a situação ainda mais perigosa para o Pentágono é que o Departamento de Defesa está aguardando a aprovação do Congresso para obter verbas adicionais antes de poder pagar os fabricantes de armas para reabastecer o estoque americano, que está bastante reduzido. Em janeiro, o governo anunciou a assinatura de acordos de sete anos com grandes empresas do setor de defesa, incluindo a Lockheed Martin, para aumentar a capacidade de produção de sistemas de defesa, como interceptores de mísseis.
 
O acordo previa quadruplicar a produção de munições guiadas de precisão e interceptores de mísseis THAAD. Os fabricantes de defesa, por sua vez, concordaram em financiar a expansão de suas fábricas em troca de encomendas garantidas a longo prazo.
 
Mas, segundo autoridades, não houve avanços para o início da produção ampliada, pois o Pentágono está se esforçando para encontrar os recursos necessários.

Transferência de equipamentos

Enquanto isso, as Forças Armadas estão utilizando seus estoques de armas existentes em ritmo acelerado para atender às necessidades imediatas do Comando Central na guerra contra o Irã. Certos níveis de munição estão diminuindo mais rapidamente do que outros.
 
O Pentágono, por exemplo, destinou a maior parte de seu estoque de mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance à luta contra o Irã. Esses mísseis, chamados de Míssil Conjunto Ar-Superfície de Longo Alcance (JASSM-ER, na sigla em inglês), são lançados de caças e bombardeiros e têm um alcance de mais de 965 quilômetros (600 milhas). Eles são projetados para penetrar alvos reforçados fora do alcance das defesas aéreas inimigas.
 
Desde o início da guerra, as forças armadas utilizaram cerca de 1.100 mísseis JASSM-ER, que custam aproximadamente US$ 1,1 milhão cada (R$ 5,5 milhões), restando cerca de 1.500 em estoque, de acordo com estimativas internas do Pentágono, um oficial militar americano e um funcionário do Congresso que falaram sob condição de anonimato para discutir avaliações confidenciais de combate.
 
Os mísseis Tomahawk, que custam cerca de US$ 3,6 milhões cada (R$ 18 milhões), são mísseis de cruzeiro de longo alcance amplamente utilizados em operações militares dos EUA desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991. Eles continuam sendo uma munição fundamental para potenciais guerras futuras, incluindo uma na Ásia.
 
“Embora haja munição suficiente para travar esta guerra, o alto gasto de Tomahawks e outros mísseis na Operação Epic Fury cria riscos para os Estados Unidos em outros teatros de operações — particularmente no Pacífico Ocidental”, concluiu um estudo do CSIS, que estimou que os estoques restantes de Tomahawks sejam de cerca de 3.000 mísseis.
 
Os mísseis interceptores Patriot podem custar quase US$ 4 milhões cada (R$ 20 milhões). Os Estados Unidos produziram cerca de 600 deles em todo o ano de 2025. Mais de 1.200 já foram usados ​​na guerra até o momento, de acordo com estimativas internas do Pentágono e autoridades do Congresso.
 
“No geral, o custo da guerra até o momento está entre US$ 25 bilhões e US$ 35 bilhões, de acordo com um estudo deste mês do American Enterprise Institute, compilado por Elaine McCusker, uma alta funcionária do Pentágono durante o primeiro governo Trump. Cancian, do CSIS, afirmou em um e-mail que ele e seus analistas estimam o custo do conflito até agora em cerca de US$ 28 bilhões.

Prejuízos inesperados

Os militares também estão incorrendo em custos inesperados com aeronaves danificadas ou destruídas. Na operação da Equipe SEAL 6 da Marinha para resgatar um oficial da Força Aérea abatido no Irã, os militares tiveram que destruir dois aviões de carga MC-130 e pelo menos três helicópteros MH-6 que estavam dentro deles, depois que o trem de pouso dianteiro das aeronaves ficou preso na areia molhada de uma pista de pouso improvisada. Cancian estimou o custo total das aeronaves perdidas em cerca de US$ 275 milhões (R$ 1,38 bilhão). Três aviões substitutos finalmente levaram o militar e os comandos em segurança, mas o Pentágono não queria que a tecnologia sensível das aeronaves caísse em mãos iranianas.
 
Todos os comandantes militares regionais estão sentindo a pressão da redução dos estoques de munição.
 
Na Europa, a guerra levou ao esgotamento de sistemas de armas essenciais para a defesa do flanco leste da Otan contra a agressão russa, de acordo com informações do Pentágono analisadas pelo New York Times.
 
Um problema descrito como grave foi a perda de drones de vigilância e ataque. As demandas da guerra com o Irã também restringiram exercícios e treinamentos. Segundo oficiais militares, isso prejudica a capacidade de realizar operações ofensivas na Europa, bem como a dissuasão de potenciais ataques russos.
 
Questionado sobre as deficiências, o General Alexus G. Grynkewich, chefe do Comando Europeu dos EUA, afirmou em um comunicado: “Nossos combatentes se orgulham do apoio que fornecemos às operações históricas do Presidente Trump contra o Irã”.
 
Mas o maior impacto foi sentido sobre as tropas na Ásia.
 
Antes do início da guerra com o Irã, os comandantes militares americanos redirecionaram o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln do Mar da China Meridional para o Oriente Médio. Desde então, duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais, cada uma com cerca de 2.200 fuzileiros navais, foram enviadas do Pacífico para o Oriente Médio. O Pentágono também deslocou sofisticados sistemas de defesa aérea da Ásia para reforçar a proteção contra drones e foguetes iranianos.
 
As armas redirecionadas incluem mísseis Patriot e interceptores do sistema THAAD na Coreia do Sul — o único aliado asiático que abriga o avançado sistema de defesa antimíssil, implantado pelo Pentágono para combater a crescente ameaça de mísseis da Coreia do Norte. Agora, pela primeira vez, os interceptores do sistema estão sendo transferidos, segundo autoridades americanas.

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