Submarinos que França vai vender à Argentina devem ser construídos no Brasil, diz ministro da Defesa

Múcio foi à Argentina tentar acertar a venda, o financiamento e a construção das embarcações da classe Scorpène e oferecer ao vizinho o cargueiro militar KC-390, da Embraer

Por Marcelo Godoy | O Estado de S.Paulo

01/06/2026

Submarinos que França vai vender à Argentina devem ser construídos no Brasil, diz ministro da Defesa
O submarino Almirante Karam (S43), o último dos quatro convencionais das classe Riachuelo construídos em Itaguaí foi lançado ao mar em novembro de 2025 Foto: Walney/Marinha do Brasil

O ministro da defesa, José Múcio Monteiro Filho, voltou da Argentina com a promessa de que os três submarinos franceses da classe Scorpène que Buenos Aires pretende adquirir devem ser construídos no Complexo de Itaguaí, no Rio. Múcio foi à Argentina na terça-feira, 26, com uma missão de descongelar as relações militares com a vizinha e, de quebra, trouxe na bagagem o interesse de seu homólogo argentino, Carlos Presti, de analisar a compra do cargueiro militar KC-390, fabricado pela Embraer.

A viagem de Múcio foi a primeira da série que o ministro planejava fazer pela América do Sul com o objetivo de apresentar os produtos da Base Industrial de defesa do Brasil aos vizinhos. O aquecimento da demanda por produtos da área em todo o mundo pode favorecer o País. Em evento em Brasília, na quarta-feira, o ministro afirmou que até agosto deve visitar o Chile, o Paraguai, o Peru, a Colômbia e a Venezuela. “Quero ir à Venezuela. Eles são os mesmos funcionários, mas temos uma nova administração. Eu estou esperançoso que a conversa seja boa”, disse.
 
Ao seu lado, em debate promovido pela Seta com empresários do setor, estavam o deputado federal Mendonça Filho (PL-PE) e a ex-deputada federal Perpétua Almeida. Múcio esteve na Argentina depois que uma missão do tesouro francês esteve em Buenos Aires e ofereceu aos argentinos o cofinanciamento entre França e Brasil para a aquisição dos submarinos. O Estadão apurou que esse modelo considera a construção das embarcações no Brasil.
 
No fim de 2024, Buenos Aires assinou uma carta de intenções com o Naval Group – a empresa francesa é sócia (41% do capital) da Novonor (59% do negócio) no Complexo de Itaguaí – para aquisição dos submarinos convencionais da classe Scorpène.
 

“Nós temos operações conjuntas com alguns países próximos da América do Sul, Peru, Colômbia, Paraguai, Uruguai, mas com a Argentina não. Qual a razão de os dois maiores países da América do Sul, duas potências, estarem distantes quando nós temos tanto o que fazer?”, questionou o ministro. Múcio descreveu como planejou a viagem á Argentina.

“Aí começa a Argentina a comprar na Europa e nos Estados Unidos coisas que poderiam comprar aqui. Então, eu falei com o presidente da República que eu precisava fazer uma diplomacia das Forças Armadas”, disse. O ministro relatou que os argentinos estavam comprando submarinos da França e contou como o Brasil entraria nessa negociação.
 
“O nosso submarino aqui é feito também pelo francês. Então, o submarino que ele (o governo argentino) vai comprar na França será feito aqui. O que é que nós queremos na indústria de defesa: o emprego, o imposto, o desenvolvimento tecnológico”, afirmou. Ele disse que a conversa em Buenos Aires foi “boa”. “Fizemos alguns planos.”
 
Múcio foi acompanhado por diretores de empresas brasileiras, como a Embraer. “Eu acho que nós precisamos fazer uma diplomacia com os militares da América do Sul para que nós procuremos as nossas convergências e as aprimoremos. Então, foi uma conversa extremamente positiva e vamos ter muitas consequências”, afirmou.
 
Foi em Itaguaí que os franceses construíram os quatro submarinos da Classe Riachuelo – derivada da classe Scorpène, vendidos à Marinha do Brasil. O quarto deles, o Almirante Karam (S43), foi lançado ao mar em novembro de 2025 na mesma cerimônia que marcou a entrega definitiva do terceiro submarino convencional, o Tonelero (S42).
 
O Complexo de Itaguaí agora está ocupado com a construção do submarino convencional com propulsão nuclear Álvaro Alberto, que só deve entrar em operação em 2034, fazendo com que o Brasil seja o primeiro País fora dos cinco que compõe o conselho de segurança das Nações Unidas e da Índia a ter esse tipo de embarcação.

A possibilidade de o complexo servir para construir submarinos para outros países do entorno estratégico do Brasil já é discutida há anos. Além da Argentina, Chile, Peru, Equador e Colômbia têm de renovar total ou parcialmente sua frota de submarinos – juntos, podem encomendar até 14 submarinos. E o Naval Group está de olho nesse mercado.
 
Além do submarinos, Múcio revelou o início de conversas coma Argentina para venda do KC-390. “No início foi uma conversa tensa, mas no final deu-se início a uma conversa”, contou. O ministro usou como argumento o fato de o avião ser “um sucesso absoluto”. “Já vendemos 57 aviões deles pela Europa toda, e os vizinhos não têm. É por isso que eu estou procurando esses vizinhos. Eles veem o avião na Hungria, na Arábia Saudita, mas por que os vizinhos não têm? A gente tem um financiamento, facilita. Nós estamos precisando quebrar esse gelo.”
 
Os aviões contam, segundo ele, com financiamento do BNDES. “Ou seja, o governo tem sido um grande parceiro que no passado não era. Era feio defender a Defesa – e nós temos ainda parceiros no governo que acham que é feio ajudar a Defesa – porque a Defesa é a indústria de fazer mal”, afirmou. A Base Industrial da Defesa representa 3,5% do PIB nacional e quase 4 milhões de empregos.
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