A Arábia Saudita está formando uma coalizão militar para proteger a navegação no Mar Vermelho, à medida que os ataques de uma milícia rebelde iemenita colocam em risco uma rota crucial para as exportações de petróleo e ameaçam ainda mais a economia global, de acordo com o Ministério da Defesa saudita.
O reino convidou cerca de 50 países para se juntarem à nova coalizão marítima, que seria liderada pela Arábia Saudita, e está pressionando para que eles se comprometam o mais rápido possível, segundo dois diplomatas que foram informados sobre a iniciativa. Eles falaram sob condição de anonimato para discutir diplomacia confidencial.
Após uma reunião nesta quinta-feira, 30, na capital saudita, Riad, 14 países afirmaram seu apoio à coalizão, incluindo Turquia, Egito, Paquistão, Nigéria e várias outras nações árabes e africanas, disse o Ministério da Defesa saudita.
A Arábia Saudita também convidou países europeus a se juntarem à nova coalizão, além dos Estados Unidos. No entanto, algumas autoridades ocidentais relutaram em aderir antes de compreenderem melhor o que a participação implicava e de terem tempo para consultar suas capitais, disse um dos diplomatas. A Arábia Saudita indicou que espera que o número de países participantes aumente.
O Ministério da Defesa saudita disse que a nova coalizão é “parte dos esforços contínuos para reforçar a segurança marítima, proteger corredores marítimos internacionais e combater ameaças direcionadas à navegação marítima e ao comércio global”. Não está claro como a nova coalizão se diferenciaria de uma operação atual da União Europeia para proteger a navegação no Mar Vermelho, conhecida como Aspides.
A coalizão terá sede na Arábia Saudita, e os países membros participarão de compartilhamento de inteligência, exercícios de treinamento e operações marítimas, de acordo com uma declaração conjunta dos 14 países que concordaram em participar. A declaração descreveu o esforço como “puramente defensivo e não focado em nenhum país” em particular.
A urgência da iniciativa saudita parece ser um sinal de que a liderança do reino considera insuficientes os esforços existentes para deter os ataques da milícia iemenita rebelde houthi, um grupo apoiado pelo Irã.
Em 20 de julho, os houthis declararam um bloqueio a navios sauditas que transitam pelo Mar Vermelho, que se tornou uma rota vital para as exportações de petróleo durante a guerra de EUA e Israel contra o Irã. Desde então, os houthis reivindicaram ataques a vários navios e não recuaram, mesmo depois que a Arábia Saudita bombardeou territórios controlados pelos rebeldes no Iêmen.
Desde que o bloqueio foi declarado, o número de navios sauditas e de outros países que passam pelo Estreito de Bab el-Mandeb, na extremidade sul do Mar Vermelho, diminuiu cerca de um quinto, de acordo com a Windward, uma agência de dados marítimos.
O Mar Vermelho, que leva ao Canal de Suez, há muito tempo é uma via navegável importante para o comércio internacional. Ele se tornou ainda mais essencial para os mercados globais de energia depois que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro, levando os iranianos a bloquear efetivamente o Estreito de Ormuz — uma estreita via navegável do outro lado da Península Arábica que costumava ser a principal rota para os embarques de petróleo do Golfo. Desde então, a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, redirecionou grande parte do seu petróleo por meio de um oleoduto terrestre até o Mar Vermelho.
Durante a guerra em Gaza, os houthis ganharam notoriedade internacional ao lançar ataques contra Israel, bem como contra navios no Mar Vermelho, descrevendo a operação como uma cruzada moral em favor dos palestinos que viviam sob bombardeio israelense.
Como os houthis controlam territórios próximos a Bab el-Mandeb, a milícia está bem posicionada para lançar mísseis e drones contra embarcações que passam pela via navegável. Desde 2023, uma operação marítima liderada pelos EUA, chamada Operação Guardião da Prosperidade (Operation Prosperity Guardian), buscou dissuadir esses ataques. A Arábia Saudita, ansiosa para evitar outro conflito com os houthis na época, não se juntou publicamente a essa operação.
Quando os Estados Unidos e Israel entraram em guerra com o Irã este ano, os houthis inicialmente pareceram dispostos a permanecer à margem. Mas, este mês, as renovadas tensões entre os houthis e a Arábia Saudita — que anteriormente liderou uma campanha de bombardeios contra os rebeldes que se transformou em um impasse de uma década — escalaram rapidamente, e os houthis anunciaram seu bloqueio aos navios sauditas.
Com o Estreito de Ormuz inacessível, qualquer obstrução no Mar Vermelho deixa a Arábia Saudita com opções limitadas para exportar petróleo, o sustentáculo do seu orçamento governamental.
Embora a Arábia Saudita mantenha há muito tempo relações antagônicas com o Irã, autoridades sauditas vinham buscando laços mais próximos há alguns anos como a forma mais pragmática de gerenciar a ameaça que Teerã representava.
A guerra frustrou esses esforços, ameaçando a segurança do reino e desgastando suas relações com os Estados Unidos, com autoridades americanas e sauditas divididas sobre a melhor abordagem para a segurança regional. Em retaliação aos ataques americanos, o Irã lançou milhares de mísseis e drones contra nações do Golfo Pérsico que abrigam instalações militares dos EUA, incluindo a Arábia Saudita.
Autoridades sauditas expressaram o desejo de permanecer fora do conflito mais amplo. Mas, na quarta-feira, 29, a Arábia Saudita realizou ataques aéreos conjuntos com os Estados Unidos no Iraque, acusando milícias apoiadas pelo Irã naquele país de atacar instalações de petróleo sauditas. Nenhuma milícia iraquiana reivindicou a responsabilidade por esses ataques.
Mesmo antes do bloqueio houthi, a Arábia Saudita já enfrentava dificuldades econômicas devido à guerra. O produto interno bruto do país encolheu 4,8% durante o segundo trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com estimativas preliminares divulgadas esta semana pela autoridade de estatísticas saudita, que apontou uma queda acentuada nas atividades relacionadas ao petróleo.
As autoridades sauditas agora se voltaram para outro desvio, enviando alguns navios no Mar Vermelho no sentido norte em direção ao Canal de Suez ou a um oleoduto próximo, de acordo com a Windward. Mas essa rota também é vulnerável a ataques e apresenta outras desvantagens, como adicionar cerca de um mês às viagens da Arábia Saudita para a Ásia, onde estão os maiores clientes de energia do reino.