Tel Aviv e Bruxelas – Integrantes do governo de Israel anunciaram planos para o estabelecimento de assentamentos militares ilegais na Faixa de Gaza, dias depois da revelação de um plano milionário para expandir a presença de colonos israelenses na Cisjordânia. A decisão, que contraria as leis internacionais, vem no momento em que a violência contra civis palestinos atinge níveis preocupantes, em atos que não raro passam impunes.
De acordo com o ministro da Defesa, Israel Katz, o plano é criar três colônias do tipo Nahal, que servem como postos militares avançados e também como base para o estabelecimento de comunidades mais numerosas e permanentes.
— A visão que tenho desde o início da guerra é que, na região norte, o modelo dos grupos-núcleo Nahal, que são de natureza militar, será significativo, e poderá haver yeshivahs (instituições de ensino religioso) e outras coisas — disse Katz ao Canal 14, na segunda-feira. — É algo necessário no momento certo.
No passado, esse tipo de assentamento foi declarado ilegal pela própria Suprema Corte israelense, que apontou violações das convenções de Haia e Genebra. Contudo, isso não impediu que os últimos governos recorressem ao modelo alegando questões de segurança.
— A fase militar é apenas a primeira, com o objetivo de preparar o local para uma futura colonização — disse ao jornal britânico Guardian Dror Etkes, fundador do grupo Kerem Etkes, que monitora o avanço das colônias judaicas na Cisjordânia — Ao todo, dezenas de assentamentos israelenses na Cisjordânia foram estabelecidos dessa maneira.
O possível estabelecimento de colônias em Gaza vai contra o que o governo de Benjamin Netanyahu tem alegado desde o cessar-fogo firmado (e descumprido) em outubro do ano passado, mas serve como um poderoso aceno à extrema direita, que defende a reocupação do território por israelenses.
Segundo o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, um ávido defensor dos colonos, o plano está pronto desde o mês passado, e aguarda apenas o sinal verde de Netanyahu para ser adotado. Na segunda-feira, durante uma visita ao norte de Gaza, Katz confirmou que os militares israelenses controlam 65% do enclave, e foi perguntado sobre como se sentia ao ver a devastação no território.
— Sinto-me bem. Graças a Deus. Tudo isso é resultado de uma política deliberada voltada para a eliminação de ameaças. Em vez do método de incursão, entrar e sair, , a IDF (Forças Armadas) estão dentro, os terroristas estão fora e as casas estão destruídas — declarou ao Canal 14.
Em paralelo à guerra em Gaza, a violência cometida por colonos judeus na Cisjordânia deu um salto nos últimos três anos, em um movimento que as Nações Unidas afirmam ocorrer em coordenação com o governo do premier Benjamin Netanyahu e sua política de “território máximo com população mínima”. Números da ONU apontam que, até meados de julho, 1.111 palestinos, incluindo 243 crianças, foram mortos por soldados e colonos armados. Punições são raras.
“À noite, eu via soldados circulando com colonos vestidos à paisana, intimidando e agredindo palestinos. Durante o dia, via as mesmas pessoas de uniforme, operando o posto de controle de Tayasir, também intimidando e agredindo palestinos. Às vezes, eles vinham juntos do posto avançado ao lado do posto de controle e ameaçavam me expulsar de casa à força”, disse um pastor que acabou sendo deslocado à força de Khirbet Yarza, citado em relatório da ONU divulgado esta semana.
Apesar de considerados ilegais pelas leis internacionais — algo reiterado por decisão da Corte Internacional de Justiça, em 2024 —, há cerca de 400 em operação, desde os reconhecidos oficialmente por Israel até os que operam à margem do Estado. Neles, vivem pouco mais de meio milhão de pessoas, de acordo com números da ONG Peace Now. Na terça-feira, o Gabinete de governo anunciou uma verba de 1,3 bilhão de shekels (R$ 2,1 bilhões) para o estabelecimento de 34 novos assentamentos.
“Estamos fortalecendo a segurança do Estado de Israel, eliminando a ideia de estabelecer um Estado terrorista no coração do país e reforçando nosso domínio sobre a terra ancestral na Judeia e em Samaria”, disse, em comunicado, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, empregando o termo bíblico usado por autoridades israelenses para a Cisjordânia.
Para ativistas, a pressa para avançar sobre terras palestinas em Gaza e na Cisjordânia tem a ver com as eleições marcadas para o final de outubro. As pesquisas mostram que são grandes as chances de Netanyahu ser derrotado.
— O governo está em uma corrida imprudente pré-eleitoral para saquear os cofres públicos a fim de criar fatos consumados — disse Hagit Ofran, da Peace Now, ao Guardian.
Neste sábado, o governo da Bélgica anunciou o veto a todas as importações de produtos vindos de empresas israelenses em terras ocupadas na Cisjordânia, se juntando a uma crescente lista de países europeus com medidas similares. A decisão eleva a pressão sobre o comando da União Europeia para adotar um banimento conjunto, mas a recusa da Alemanha e da Itália em apoiar a iniciativa impede sua implementação, uma vez que todas as decisões precisam ser tomadas por unanimidade.
— A própria Comissão afirmou que é necessária unanimidade, e compartilhamos dessa visão — disse Johann Wadephul, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, antes de uma reunião de chanceleres onde o tema foi debatido. — Devemos agora nos concentrar em garantir que essas discussões com o governo israelense permaneçam produtivas, apesar da campanha eleitoral. É aí que acredito que nossos esforços devem se concentrar.