Israel volta a atacar o Líbano e inclui pela primeira vez área cristã de Tiro em ordem de retirada

Pelo menos 14 pessoas foram mortas; ofensiva ocorre um dia após Irã ameaçar retomar os ataques contra o Estado judeu caso operações no território libanês fossem mantidas

Por O Globo e agências internacionais

09/06/2026

Israel volta a atacar o Líbano e inclui pela primeira vez área cristã de Tiro em ordem de retirada
Fumaça sobe após ataque israelense em Tiro, no sul do Líbano; pela primeira vez, Israel ordenou a evacuação de toda a cidade antes dos bombardeios — Foto: Kawant Haju/AFP

Tiro – Apenas um dia após o Irã ameaçar retomar os ataques contra Israel caso o país mantivesse suas operações no Líbano, bombardeios israelenses mataram ao menos 14 pessoas no sul do país, incluindo um adolescente de 16 anos. As ofensivas atingiram cidades e vilarejos em diferentes partes do sul libanês, colocando novamente sob pressão o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. Pela primeira vez, ordens de evacuação emitidas pelo Estado judeu citaram toda a cidade de Tiro, incluindo bairros cristãos anteriormente preservados.

Militares israelenses afirmaram, sem apresentar provas, que integrantes do Hezbollah estavam operando no local. No X, o porta-voz em língua árabe das Forças Armadas de Israel, Avichai Adraee, disse que, diante das “ações de agentes do Hezbollah dentro do bairro cristão da cidade”, o Exército seria “obrigado a agir contra suas atividades terroristas na área em um futuro próximo”. O órgão militar já havia ameaçado atacar o bairro na semana passada, levando autoridades libanesas a visitarem a região para tranquilizar os moradores.

Situada na costa do Mediterrâneo, Tiro é a maior cidade localizada ao sul do rio Litani, uma linha de demarcação importante nos conflitos entre Israel e o Hezbollah. Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial, a cidade abriga sítios arqueológicos preservados, incluindo ruínas da época romana, e tinha cerca de 100 mil habitantes antes do início da guerra atual. A cidade possui maioria muçulmana xiita, além de comunidades sunitas e cristãs. Três campos oficiais administrados pela agência das ONU para refugiados palestinos (UNRWA) ficam próximos à cidade, assim como outras áreas com grande população palestina.

Nos últimos meses, Tiro serviu como refúgio para moradores que deixavam áreas mais próximas da fronteira com Israel. Ao mesmo tempo, a cidade passou a ser alvo recorrente de ataques aéreos, levando parte da população a buscar segurança em regiões mais ao norte do Líbano. Com a nova ordem de evacuação, abrigos de emergência ficaram rapidamente lotados, enquanto equipes de resgate atuavam para retirar moradores idosos da área.

Nesta terça, líderes de várias igrejas de Tiro fizeram um apelo ao presidente do Líbano, Joseph Aoun, e ao comandante das Forças Armadas libanesas, Rodolphe Haykal, para que salvem a Cidade Antiga.

“Qualquer ataque contra ela seria uma catástrofe nacional”, diz o comunicado, acrescentando que a área abriga civis inocentes e um patrimônio cultural e religioso com séculos de história. “Pedimos esforços políticos e de segurança imediatos para preservar a capacidade de permanecer firmes, e conclamamos a comunidade internacional e as agências da ONU a cumprir sua responsabilidade moral de proteger a população de acordo com o direito humanitário internacional”.

Citado pelo jornal israelense Haaretz, Georges Iskandar, arcebispo melquita de Tiro, afirmou que permanecerá ao lado de sua comunidade apesar da ordem de evacuação:

— Permanecemos na cidade de Tiro, entre nosso povo. Assim como nossos pais e avós fizeram antes de nós, e assim como os perseverantes filhos do sul permanecem hoje em sua terra, em suas aldeias e cidades.

Aumento das tensões

O agravamento da situação ocorre em meio ao aumento das tensões entre Israel e Irã. No domingo, um ataque israelense ao bairro de Dahiyeh, na periferia sul de Beirute, onde o Hezbollah exerce forte influência, desencadeou uma troca direta de ataques entre os dois países pela primeira vez desde a entrada em vigor de uma trégua em abril.

Na segunda-feira, o comando conjunto das Forças Armadas iranianas anunciou a suspensão de ataques ofensivos, mas advertiu que novas “agressões e atos hostis” de Israel e de seus aliados, incluindo no sul do Líbano, seriam respondidos com medidas “muito mais severas e devastadoras do que antes”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel continuará suas operações contra o Hezbollah no território libanês e declarou que o país exercerá seu direito à autodefesa “em toda a extensão necessária”. O ministro da Defesa, Israel Katz, rejeitou as ameaças iranianas e afirmou que qualquer tentativa de Teerã de atacar Israel será respondida “com grande força”.

Enquanto isso, o presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta terça que Israel e Irã concordaram em interromper os ataques mútuos e disse acreditar que um acordo entre Washington e Teerã poderá ser concluído nos próximos dias. Autoridades iranianas não responderam às declarações. Os mais recentes bombardeios evidenciaram como o Líbano se tornou um dos principais pontos de divergência nas negociações para encerrar a guerra travada entre os EUA, Israel e Irã.

Teerã tem insistido que qualquer acordo de paz inclua garantias de segurança para o Líbano, enquanto Israel rejeita essa vinculação e afirma que continuará realizando ataques no país para atingir o Hezbollah. O grupo, por sua vez, rejeitou qualquer cessar-fogo com Israel e continua lançando ataques contra território israelense a partir de suas posições no sul do Líbano. Israel ocupa amplas áreas da região, argumentando que a medida é necessária para se defender dos ataques do grupo.

Trump tem afirmado repetidamente que Estados Unidos e Irã estão próximos de um acordo para encerrar a guerra, resolver o impasse em torno do programa nuclear iraniano e reabrir o Estreito de Ormuz. Em meio aos esforços diplomáticos, o embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa, declarou à emissora al-Jadeed que o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, concordou com um cessar-fogo. Segundo ele, as negociações entre Israel e Líbano deverão ser retomadas em 22 de junho, em Washington.

Segundo dados apresentados pelo Ministério da Defesa do Líbano, entre 17 de abril e 7 de junho, Israel realizou 3.491 ataques aéreos considerados violações do cessar-fogo. O relatório registra ainda 407 bombardeios, seis operações com tratores e máquinas de remoção e seis incursões terrestres de tropas israelenses. Pelo menos 3.526 pessoas foram mortas no país, enquanto outras 10.733 ficaram feridas.

(Com AFP e New York Times)

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